quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A yoga como opção para o tratamento da ansiedade

Palavras-chave: neurociência, yoga, ansiedade, depressão, GABA, exercício físico.

O título deste artigo não revela nada de novo em termos de tratamentos psiquiátricos ou psicológicos mas três fatos acontecidos comigo fizeram com que eu me interessasse em escrever este texto: as recentes experiências (1) do professor de psiquiatria Chris Streeter, da Universidade de Boston, com praticantes de yoga, algo que escrevi há muito tempo atrás e um pequeno tratamento meu para ansiedade e insônia há mais tempo ainda.

Em 2001 eu tive o prazer de terem publicado o meu primeiro artigo sobre neurociência na revista Cérebro & Mente - www.cerebromente.org.br - de nome “A base material dos sentimentos”. (2)  Mas só que eu o havia escrito já em 1991 e não tinha onde publicar… Ficou dez anos engavetado até com a chegada da internet e quando descobri a revista em 2001.

Falei sobre depressão, ansiedade e remédios, citando o efeito de um ansiolítico, o Dalmadorm (flurazepam) sobre o sistema nervoso, em que, no caso, atuava “...aumentando o efeito de neurotransmissores inibitórios da resposta nervosa, como o ácido gama-aminobutírico - GABA.” Assim estava escrito em 1989, durante o tratamento, na bula do remédio e ele era ótimo para a ansiedade, insônia e também para a angústia, uma das piores dores mentais que o nosso sistema nervoso possa provocar. Hoje a mesma bula vem com a frase “inibe, em animais, a resposta tensional devido à estimulação elétrica do hipotálamo e eleva o limiar da excitação. No homem, o Dalmadorm prolonga a duração do sono, diminui o tempo de adormecimento assim como a frequência de despertares noturno.”

O professor Streeter e colaboradores utilizaram oito experientes praticantes de yoga com uma sessão de sessenta minutos e onze não praticantes realizando uma leitura qualquer durante o mesmo tempo. A ideia era simples, comparar os níveis de GABA antes e depois do yoga e de quem efetuou a leitura.

Escolheram como posturas do yoga a chamada asana ou ássana, palavra sãnscrita que significa “assento”. Um método muito utilizado aqui no ocidente devido à sua popularização através de pessoas famosas como Madonna e Sting.

Utilizando imagens espectroscópicas de ressonância magnética imediatamente antes e imediatamente após as sessões de ambos os grupos, os cientistas verificaram um aumento de 27% de ácido-aminobutírico nos praticantes de yoga e nenhum aumento no outro grupo.

Nas conclusões de Streeter e de seus colaboradores, nada como explorar o yoga como tratamento para transtornos de ansiedade e até depressão para distúrbios com baixa de GABA. E como o yoga é também uma forma de exercício, pesquisas futuras com muitos tipos deles poderão indicar quais serão mais apropriados para cada pessoa e sintomas  existentes.

Referências bibliográficas:

Ciraulo DA, Renshaw PF. Yoga Asana sessions increase brain GABA levels: a
pilot study. 2007. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17532734 >. Acesso em: 06/12/2017.

2 - Argos Arruda Pinto. A base material dos sentimentos. 2001. Disponível em: < http://www.cerebromente.org.br/n12/opiniao/sentimentos.html >. Acesso em: 06/12/2017
e
Argos Arruda Pinto. A base material dos sentimentos. Blog: Sistemas, Teoria da
Evolução, Neurociências. 2008. Disponível em: < http://sistemaevolucaoneurociencia.blogspot.com.br/2008/01/base-material-dos-sentimentos.html >. Acesso em: 06/12/2017.

sábado, 18 de novembro de 2017

A consciência muda o cérebro com a neuroplasticidade

Palavras-chave: neurociência, neuroplasticidade, consciência.  

Em meu artigo “Psicoterapias, neuroplasticidade e alterações na consciência”, (1) eu comento o fato das depressões e outros desequilíbrios emocionais modificarem a consciência. Isto é chamado de relação de baixo para cima, ou seja, do cérebro para a consciência, e também existe a relação de cima para baixo: a consciência modificando estruturas cerebrais.

Esse segundo fenômeno é muito comum no dia a dia de muitas pessoas mas não comentado como acima. Citarei um exemplo, sem a necessidade de ser completo, que faz parte da bibliografia (2) em que me baseio este artigo:

“Na sexta-feira, às 06:30 da tarde, no dia 4 de agosto de 2006, aos 66 anos, sentado na mesa, segurando a cabeça com a mão direita, I.K. de repente caiu com o rosto na mesa. Ele não conseguiu mover a perna e o braço direito, nem poderia pedir ajuda, pois sua habilidade de falar foi perdida. Mais tarde, descobriu-se que sua artéria carótida esquerda foi obliterada e parou de fornecer sangue e oxigênio à metade esquerda de seu cérebro. I.K. experimentou um acidente vascular cerebral isquêmico desastroso: em poucos minutos, quase uma quarta parte do cérebro foi destruída, com as consequências dramáticas de uma paralisia do lado direito de seu corpo (hemiplegia), perda de capacidade de falar e compreensão (afasia) e incapacidade de escrever (agraphia).

Nesta situação difícil, I.K. ainda podia ouvir os médicos ao seu redor que discutiam sua situação. Naquela época os neurologistas podiam ver que I.K. sofreu graves danos estruturais e teve pouca esperança para sua recuperação. Mas, um ano depois, tornou-se evidente que I.K. tinha experimentado uma reabilitação inesperada. Quatro anos após o incidente, I.K. já podia tocar piano com a mão esquerda, escrever livros e poemas, pintar e exibir suas pinturas ao público.

O que aconteceu? Uma explicação potencial tinha a ver com o fato de que I.K. tinha um hemisfério direito excepcionalmente desenvolvido (o hemisfério intacto), que tinha sido aprimorado por anos por tocar piano e pintar em seu tempo livre. Não há dúvida de que essas atividades têm desempenhado um papel importante em sua recuperação surpreendente. Mas há uma segunda explicação adicional. Em um de seus poemas escrito após o incidente, I.K. apresentou sua decisão de realizar uma nova forma de vida: "Quero falar palavras de sabedoria, mas sei que minha boca vai me trair quando falo… Então, o que me resta? Tenho vontade de viver, não como eu quero, mas como posso". Essa decisão foi tomada apesar dos sintomas dramáticos que incluíram dificuldades na escrita, repetição de palavras, criação de novas palavras e muito mais. Foi uma decisão consciente que representou um ato de vontade e pode ser considerada a fonte de sua surpreendente reabilitação.

Vinte e dois dias após o acidente vascular cerebral ele criou a seguinte imagem, que mostra o polegar paralisado do braço direito parcialmente coberto por figuras de cabeças e uma parte vazia. A imagem demonstra sua luta para entender seu novo estado. Dois anos depois ele pintou uma cidade em uma metade de tabuleiro de xadrez, com as casas em cima das casas (posições das peças) do  xadrez, intitulada por ele como "Tabuleiro de xadrez", imagem de sua reabilitação.

Vale a pena notar que foram as capacidades linguísticas, de comunicação e de se expressar de I.K. que se recuperaram, e, menos ainda, suas habilidades motoras. O segredo desta transformação maravilhosa foi o seu poder de vontade e firme decisão de viver da melhor maneira possível, mesmo que severamente limitado. Um envolvimento de um efeito descendente da consciência sobre a neuroplasticidade de seu cérebro pode explicar a reabilitação de I.K., ao contrário de muitos outros em seu estado.”

Os principais componentes da consciência são a intencionalidade (3), autoconsciência, subjetividade e a vontade.

Veja a última palavra… vontade… ligada à…  força de vontade, uma de nossas expressões mais fortes, mais utilizada após adversidades onde queremos melhorar em algo, na superação de problemas, para chegarmos próximos a limites, etc. E é justamente quando no cérebro a consciência, a cognição e a memória são preservados, que podemos nos esforçar em alcançar objetivos considerados quase impossíveis para muitos. I.K. decidiu por lutar por uma vida,  mesmo que  restrita, mas da melhor forma que poderia encontrar. A consciência de I.K. estava presente em todos os momentos pelos quais passou desde o momento de sua decisão… consciente.

  
Referências Bibliográficas

1  - Argos Arruda Pinto. Psicoterapias, neuroplasticidade e alterações na consciência. 2017. Disponível em: <

2 - Jean Askenasy; Joseph Lehmann. Consciousness, brain, neuroplasticity. 2013. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3706726/  >. Acesso em: 18/11/2017.

3 - Argos Arruda Pinto. A intencionalidade como um dos comportamentos mais importantes da evolução e da psicologia evolucionista. 2016. Disponível em: <

sábado, 11 de novembro de 2017

Psicoterapias, neuroplasticidade e alterações na consciência

Palavras-chave: neurociência, depressão, consciência, psicoterapia, TCC.

Neurocientistas procuram atualmente relacionar mudanças na consciência, para compreendê-la melhor, a partir dos efeitos da psicoterapia, avaliando alterações no cérebro, a neuroplasticidade. Se as psicoterapias promovem modificações na estrutura e/ou no funcionamento de áreas cerebrais, a consciência deverá ser alterada também.

A consciência, sendo um ou vários estados cerebrais ao mesmo tempo, interligados, possui uma base física na qual se assenta: o cérebro. E assim também é a mente na qual a consciência é uma “parte” dela.

Possuímos uma tendência a considerar a consciência como algo imaterial, sobrenatural e, sendo assim, algumas pessoas dizem que processos físico-químicos, ou biológicos se você preferir, não produzem algo imaterial. “Nunca vimos nada físico produzir um estado imaterial”, eles dizem. Mas as psicoterapias conseguem mexer fisicamente com o substrato neural e, consequentemente, alterando o comportamento de uma pessoa, havendo assim mudanças na consciência. Mesmo em um exemplo simples, como uma pancada na cabeça a fazer com que alguém desmaie, também houve uma alteração na consciência, um desligamento, mostrando que ondas de choque mecânicas atuaram em níveis neuronais, de impulsos nervosos, íons, influindo fortemente na consciência a ponto de desligá-la.

Em outro ponto, o cérebro imutável, estático, cedeu lugar a outro dinâmico, onde qualquer aprendizado só é possível graças à neuroplasticidade que apenas de   algumas décadas para cá foi possível se perceber graças a instrumentos eletrônicos sofisticados. PET, SPECT, iFMR são algumas siglas já conhecidas nesse campo.

A CBT (ou TCC) é uma das terapias mais poderosas nesse processo de avaliação de modificações na consciência, embora a psicoterapia psicodinâmica também produz resultados semelhantes apesar de suas abordagens diferentes. Talvez as duas funcionam pois dessa maneira porque buscam finais comuns. Mas a TCC é ainda preferida dos cientistas, mexendo  com as emoções, sentimentos, comportamentos, etc., avaliando mudanças em que, por exemplo, uma área de sintoma como da cognição, é acompanhada por mudanças em outras áreas de sintomas como comportamentos e emoções.

Assim, analisando atividades cerebrais antes e depois da TCC em depressões, verificou-se modificações em áreas do sistema límbico, o córtex pré-frontal dorsolateral e áreas cinguladas. Algo até surpreendente pois poucas áreas do cérebro se alteraram e, com isso, alteraram a consciência. Poucas áreas mas importantes. Houve  diminuição da atividade no sistema límbico, especialmente a amígdala, com o córtex pré-frontal dorsolateral tornando-se relativamente mais ativo.

A depressão produz modificações nos comportamentos dos indivíduos que vão desde uma tristeza onde sair,  tirar férias, se desprender de preocupações do dia a dia, possam levar a um melhoramento de seus sintomas, com até modificações em que eles fiquem abatidos, sem forças para o trabalho, para continuarem com suas vidas sociais, e até permanecerem literalmente prostrados em suas camas.

Aqui eu abro um parênteses para um exemplo no qual eu mesmo fui o protagonista de uma depressão profunda onde, por três anos, mais ficava em minha cama do que de pé! Mesmo com um antidepressivo, a clomipramina, eu ficava deitado o dia inteiro e só tinha energias para me levantar, pasme, por volta das seis horas da tarde. Às vezes levantava ao meio-dia e ia resolver alguns compromissos. Dormia minhas sete a oito horas comuns de sono, me alimentava, tomava banho e até saía, mas muito triste.

Então posso dizer de uma mudança de consciência a qual fui submetido. Eu não falava para o médico sobre essa situação; eu não chegava a ele e dizia que o remédio e/ou a dosagem estavam errados; e não por que não queria e sim porque minha consciência não me permitia, onde eu havia perdido grande parte dela  esquecendo da minha vida anterior, social, afetiva e de trabalho. Foi algo onde se mostra um dos lados mais nefastos da depressão: a pessoa sem consciência do que ocorre, podendo levá-la a comportamentos destrutivos.

Acabei por mudar de cidade e de médico. Foi-me receitado a fluoxetina - o prozac - e, em apenas oito dias, eu levantei da cama às sete horas da manhã, tomei um banho e saí. O que é a química cerebral…

Hoje estou muito bem e a fluoxetina possui uma ação muito bem conhecida: ela segura o chamado neurotransmissor transportador que não deixaria a serotonina realizar com eficácia as suas sinapses, levando-a de volta à membrana pré-sináptica. A famosa frase: “inibidor seletivo da recaptação da serotonina.”  


Referência Bibliográfica

Daniel Collerton. Psychotherapy and brain plasticity. 2013. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3764373/ >. Acesso em: 11-11-2017.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A máquina de ler pensamentos está próxima de ser construída

Palavras-chave: neurociência, iFMRI, pensamento, neurônio, leitura

De onde vêm os nossos pensamentos? Como eles são? Algo está bem claro entre os cientistas: atividade elétrica dos neurônios ou impulsos nervosos se você preferir. Mas não uma atividade como em um fio metálico a carregar um celular: elétrons em número muito grande se movendo pelo fio. Aqui falamos de íons, átomos carregados eletricamente em movimento, axônios como fios, sinapses, que são uma ponte química entre um neurônio e outro. E para qualquer célula funcionar e realizar suas tarefas, faz-se necessário a presença de oxigênio na molécula de hemoglobina, com o sangue levando essas moléculas para o oxigênio sofrer uma reação de combustão com carboidratos, açúcares, e gerar energia para a célula. E o neurônio não foge a essa regra. Onde,  nas regiões cerebrais que estiverem mais ativas, são justamente aquelas com maior presença de sangue devido ao fornecimento de oxigênio.

A presença de oxigênio na hemoglobina faz com que esse pequeno conjunto se torne, na linguagem da Física, paramagnético, uma condição em que um campo magnético externo possa interagir com um pequeno campo também magnético produzido por esse conjunto.

Existe um aparelho eletrônico sofisticado para tanto, de sigla iFMR -  Imagem por Ressonância Magnética Funcional - capaz de detectar o campo magnético do sistema oxigênio-hemoglobina e, através de um scaneamento, obter dados de quais regiões cerebrais estarão funcionando com maior intensidade.

A quantidade de informações obtidas por esse tipo de scanner requer um apoio de um sistema de localização e investigação dessas informações que recebe o nome de Machine Learning, ou, em português, aprendizado de máquina. Esse aprendizado visa relacionar o próprio aprendizado humano a proporcionar a inteligência em computadores, a inteligência artificial. Um tipo de método para se trabalhar com Machine Learning é o MATLAB, um programa computacional, abreviação de MATrix LABoratory mas que para profissionais de saúde não é tão apropriada. Outro, com muito maior eficácia a decodificar informações de padrões de atividade cerebral é o MVPA, sigla de “Multi Voxel Pattern Analysis”, Análise de Padrões MultiVoxel.    

O fMRI realiza um scaneamento cerebral obtendo dados a cada dois ou três segundos com uma pessoa dentro de uma caixa cilíndrica com um poderoso eletroímã. O campo magnético gerado por esse eletroímã chega a ser 30.000 vezes maior que o campo magnético da Terra.

É informado à pessoa para pensar, por exemplo, em uma casa, enquanto o scanner trabalha. Depois em um sapato e assim por diante. O cérebro forma padrões desses objetos de análise que, no futuro, serão reconhecidos quando não for solicitado à pessoa pensar neles e ela pensar… É difícil se concentrar em uma palavra só todo o tempo e por isso outros pensamentos, objetos, são também percebidos e constituem o que se chamam de ruídos, interferências. Repetindo várias vezes o processo, os cientistas conseguem chegar nas palavras por eles ditadas.  Pronto, já temos uma “leitura de mente” mas com substantivos, ou seja, objetos concretos. Assim que se for aprimorando as “Machines Learning’s”, adjetivos, palavras comuns como pronomes, advérbios, etc., os pensamentos das pessoas serão compreendidos como frases, que é o princípio do processo da linguagem, até com detalhes como intenção, mentira, sinceridade, etc.

Talvez isso demore ainda um tempo mas já podemos vislumbrar alguma  aplicação prática de imediato.

Um delegado pergunta a um sujeito onde ele estava em certo dia e horário quando da ocorrência de um assassinato. Ele se esforça em imaginar a sala da casa dele, vendo televisão com um amigo, o seu álibi. Mas ele é o criminoso e pelo fMRI seus pensamentos vêm de áreas específicas da imaginação. Se ele por um instante se lembrar, o que realmente poderá acontecer ainda mais pelo cansaço da investigação, o rosto da vítima, o local do crime, o som do disparo da arma, etc., será denunciado pois só ele viu esses padrões vindos dos ângulos e da própria luz que entraram em seus olhos e foram processados pelo lobo occipital antes de passarem para a memória. E mesmo se ele for um super-homem, capaz de apenas imaginar a sala da casa com o amigo e a televisão, será também denunciado pois estará utilizando somente a imaginação!

Este é apenas um exemplo simples da quantidade de situações e fatos a serem analisados com pessoas nas mais diversas sociedades do mundo inteiro.

Bandidos e políticos corruptos que se cuidem!


Bibliografia

SILVA, Laura Angélica Tomáz. Ferramenta experimental para análise de padrões de atividade cerebral. 2015. Disponível em: < http://repositorio.roca.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/5629/1/PB_COADS_2015_2_03.pdf >. Acesso em: 03/11/2017.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Psicoterapia, neuroplasticidade e neurorreligação

Introdução.
Neste artigo eu relaciono diretamente a psicoterapia com a neuroplasticidade, mudanças estruturais e/ou funcionais no cérebro, porque é neste ponto que os diversos tipos de sessões com psicólogos irá ajudar a recuperação de pacientes com problemas emocionais dos mais diversos.

Uma ou várias rotas neurais estão ativadas, ou seja, transmitindo correntes elétricas nervosas, ao você ver um cão se dirigindo em sua direção. Elas estimulam regiões cerebrais liberando substâncias químicas em sua corrente sanguínea como a adrenalina, aumentando seus batimentos cardíacos e aumentando a quantidade de sangue oxigenado, deixando-o pronto para correr ou enfrentar o cão. Mas você está também com medo, possui esse medo desde criança quando fora atacado e mordido por um deles e nem se lembra desse fato.

Este é um exemplo clássico de fobia na Psicologia onde a psicoterapia poderá ajudá-lo pois o animal em questão não é nada grande e seu pânico chega a ser absurdo até para você! E como ela poderá ajudá-lo? Através de sessões semanais em conversas com um profissional, um psicólogo.  Com o tempo o medo passa melhorando o seu estado emocional até em lidar com cachorros.

E o quê aconteceu de verdade?

Primeiro temos que recorrer à neuroplasticidade que é a capacidade do cérebro de se reorganizar, mudar mesmo em estruturas microscópicas, conforme estímulos do meio ambiente chegando pelos nossos sentidos e sendo processados.

Alguns fenômenos podem acontecer como o brotamento de axônios ou brotamento axonal, a mudança no número, disposição espacial, densidade de espinhas dendríticas e comprimento de dendritos a receber impulsos nervosos   e  os receptores de neurotransmissores sofrerem alterações em tipo ou número. E também o aprendizado está relacionado com tudo isso, como apareceu em uma fotografia microscópica de um estabelecimento contínuo, ou ao mesmo muito duradouro, de sinapses através de uma grande quantidade de neurotransmissores entre elas. Foi com um camundongo de laboratório, em uma experiência na década de 90 e postada por um jornal de grande circulação nacional, quando aprendeu  o caminho correto a levá-lo a um pedaço de queijo.

O cérebro é um órgão em constante mudanças estruturais. São muito pequenas em sua grande maioria e só com o desenvolvimento de aparelhos eletrônicos sofisticados como a tomografia por emissão de fóton único (SPECT), a tomografia por emissão de pósitrons (PET), a ressonância magnética funcional (fMRI), a ressonância magnética espectroscópica (MRS) e o NIRS (espectroscopia no infravermelho próximo) é que foi possível aos cientistas perceberem fatos antes desconhecidos.

O que se pode explicar bem resumidamente até agora é o fato de uma ou mais rotas neurais, onde são percorridas por impulsos nervosos a chegarem em regiões cerebrais liberando substâncias como descrito no primeiro parágrafo,  onde você ficava desesperado ao ver um cão, tendo agora rotas diferentes devido à neuroplasticidade e desviando os impulsos a outras regiões amenizando seus problemas ao liberarem outras substâncias.

Os estímulos externos, em sua psicoterapia, capazes de realizar tais efeitos foram as conversas com o psicólogo. Você pode, por exemplo, ter se lembrado do ataque do cão quando criança, sendo essa lembrança crucial nas modificações neurais descritas acima, pois uma tomada de consciência como essa irá alterar e demais as suas memórias, emoções e sentimentos, influindo em seus circuitos neurais.

Então, esse é o fenômeno da neuroplasticidade mas a história não para por aqui.

Imagine agora alguém com depressão. Grosso modo é uma grande diminuição da atividade neurônica na pessoa. Fendas sinápticas sem sinapses, sentimentos e emoções negativos dos mais diversos tais como autocomiseração, falta de sentido na vida, angústia, ansiedade, etc.; sentimentos esses que poderão levar tal pessoa ao suicídio. E veja que todos esses sintomas negativos apareceram depois de tal doença, ou seja, não estavam no script com relação ao (s) problema (s) central (is) que levou (aram) à doença, até que um dia os cientistas perceberam que eles apareceriam mesmo, sempre.

Digamos que remédios e psicoterapia são recomendados a esse alguém tão fragilizado, física e emocionalmente, perdendo momentaneamente sua vida social, de trabalho e afetiva (gosto de citar em meus artigos essas três palavras pois resumem 100%, ou algo próximo a isto, nossa vida diária, comum…). Com o tempo o humor, a vontade de viver, a alegria, começam a fazer parte da vida dessa pessoa como antes da depressão, da tristeza, da angústia, etc.

Houve reversão nas anormalidades estruturais ou funcionais associadas a uma certa sintomatologia antes da terapia; em outras palavras, a psicoterapia pode amortecer a estrutura e a função do cérebro, a "psicologia da normalização". Pode também ocorrer que a terapia pode levar a mudanças compensatórias em áreas do cérebro que não apresentaram funções alteradas antes da terapia. São normalizações de padrões anormais de atividade, onde, muitas vezes remédios e psicoterapia juntos podem não surtirem efeitos desejados mas somente uma prática dessas. (1)

É já famosa a experiência com neuroimagens em motoristas de táxis em Londres pois eles passam por um “curso” de dois anos aprendendo sobre o mapa da cidade, ruas, avenidas, pontos turísticos, pontes, igrejas, etc. Eles apresentam um aumento no hipocampo posterior onde é justamente a região cerebral responsável pelos pensamentos, imaginação e memória em três dimensões. (2)

A neuroplasticidade aparece onde há aprendizado, estímulos externos produzindo emoções e sentimentos e, neste caso, como eu falei especificamente da depressão, se a pessoa voltar a ter sua vida social, de trabalho e afetiva de volta, eu chamo de neurorreligação.

Não é à toa que a densidade do cérebro é muito pequena, beirando 1,3 g/cm3,  próxima a da água, 1,00 g/cm3. Modificar uma estrutura bastante gelatinosa é bem mais fácil que outra bem mais rígida.


Bibliografia:

1 - Barsaglini A., Sartori G., Benetti S., Pettersson-Yeo W., Mechelli A. The effects of psychotherapy on brain function: a systematic and critical review. Prog. Neurobiol. 2014 Mar. Disponível em < https://f1000.com/prime/718292548 >. Acesso em: 22/09/2017.

2 - Eleanor A. Maguire, David G. Gadian, Ingrid S. Johnsrude, Catriona D. Good, John Ashburner, Richard S. J. Frackowiak, and Christopher D. Frith. Navigation-related structural change in the hippocampi of taxi drivers. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC18253/ >. Acesso em: 22/09/2017.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Neurociência e como se formam os valores religiosos em nosso cérebro

Um valor se forma quando uma ou mais informações, chegando à sua mente, são memorizadas e têm a capacidade de, quando estimulada por algum fato futuro qualquer, gerar um sentimento que o levará a agir. É uma memória de emoção, em relação a algo material ou abstrato pelo qual nós seres humanos temos consideração, apreço, sentimento.

Simples assim? Não! Por trás de uma frase desta existe mais ciência do que você possa imaginar. Existem centenas de anos de pesquisas e descobrimentos, cientistas dando suas vidas pela verdade e nem sempre tendo sucesso, mas, não entrarei no assunto da história da ciência.

Quero esclarecer neste artigo algo que sempre digo: "a partir da infância uma criança terá os seus sentimentos 'canalizados' a acreditarem nos valores religiosos". Valores passados pelos pais, amigos, parentes, a religião local, as escolas, etc., enfim, do meio ambiente social. E por esses valores as pessoas se unem, fazem bem ao próximo, mas, também se matam!

Como é possível existir comportamentos tão antagônicos? Não é tão simples responder, mas entra aí a intolerância com os valores das outras religiões, o fato de cada uma achar os seus valores absolutos, de serem verdades absolutas e competirem diretamente uma com as outras de forma muitas vezes desastrosa. Ainda que no Brasil exista muita tolerância, reconhecida por outros países, lá fora é muito diferente.

Em meu texto "O paradoxo dos gêmeos religiosos" <http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/search?updated-min=2008-01-01T00:00:00-02:00&updated-max=2009-01-01T00:00:00-02:00&max-results=2>, digo da diferença de dois irmãos criados separadamente em meios sociais diversos onde as suas religiões são diferentes. Irão estranhar as crenças um do outro, os valores religiosos.

Veja, educados em culturas onde as informações que receberam não eram iguais, formarão muitos valores incompatíveis entre si. E é aí que entrarão em conflito se não houver tolerância. No texto falo, sendo um cristão e outro muçulmano... O cristão: "Deus é pai de Cristo e este veio ao mundo para nos salvar. A Bíblia é o seu livro sagrado onde existem ensinamentos dos Dois. O muçulmano dirá que acredita em Cristo, mas que ele fora apenas - e aqui já começa a briga - um profeta em nível terreno e humano. Maomé, inclusive não citado na Bíblia, é o profeta que escreveu um livro sobre tudo o que o deus Alá queria para o povo na Terra. O livro é o Corão e nem queira dizer a eles que o que está escrito lá não tem nada a ver com a nossa realidade neste mundo!".

Receberam informações diferentes que, memorizadas, possuem a capacidade de gerarem ações diferentes ou, no mínimo, com muita incompatibilidade porque os sentimentos são diferentes. E nem preciso dizer o quanto os sentimentos são poderosos em nossas vidas.

Mas no primeiro parágrafo temos conceitos científicos relacionados com valor. São eles: informação, mente, memória e sentimento. Estes conceitos foram um a um compreendidos pela neurociência como manifestações das atividades neurônicas em nosso cérebro que descrevo aqui:

1 - Informação: os neurônios transmitem informações entre eles sendo as unidades básicas no cérebro, responsáveis por esse fenômeno. E esse fenômeno já é conhecido há muito tempo desde a década de, pasmem, 1890, quando o neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) descreveu o que se chamou de "a teoria do neurônio", a teoria da organização neural, com quatro princípios:
1a. Existe uma célula, que Cajal chamou de neurônio, que é a unidade de sinalização elementar do sistema nervoso;
2a. O prolongamento de um neurônio, o axônio (transmissão), se comunica com os dendritos (recepção) de outros neurônios em uma região chamada fenda sináptica. Mais tarde os cientistas descobriram que o impulso só passa de um neurônio para outro com a presença de substâncias químicas, os   neurotransmissores, se acumulando nessa região que é vazia, fenômeno esse conhecido como sinapse;
3a. Um neurônio se comunicará somente com células específicas e não com outras;
4a. Dentro de um neurônio o sinal viaja somente em uma direção e sentido. Com isto é possível rastrear como o sinal se comunica com as outras células nervosas.

Feito isto, Cajal, recebendo o Nobel de 1906 de fisiologia ou medicina, estabeleceu as bases do funcionamento cerebral em termos simples que são os neurônios.

2 - Memória: existe uma base química para a memória descoberta pelo cientista americano Eric R. Kandel, Nobel de fisiologia ou medicina em 2000, em que ele brilhantemente explica no livro "Em Busca da Memória" (Kandel, 2009).

Existe a memória de curto prazo e a memória de longo prazo, onde a primeira é um fortalecimento das sinapses com uma maior liberação de neurotransmissores. Já na segunda acontecem dois fenômenos: substâncias estimulando um gene do neurônio a produzir novos prolongamentos do axônio para haver mais sinapses e também se aumentando a produção de neurotransmissores do que na memória de curto prazo. Uma observação tem que ser feita aqui: nas duas ocorrem interações de diversas substâncias químicas não sendo viável descrevê-las em um texto simples e pequeno como este.

3 - Sentimento: sensação devido a estímulo (s) externo (s) ou interno (s) fazendo com que haja ou não a liberação de neurotransmissores em neurônios de diversas áreas cerebrais em conjunto, ocorrendo ou não a liberação de hormônios e/ou neurotransmissores pelo nosso corpo. É bom salientar que nós percebemos uma sensação ou um sentimento não só em nossos cérebros, mas também pelo corpo. Por exemplo, o alívio de uma angústia com o alívio de uma sensação ruim em nosso peito acompanhada do desaparecimento também de pensamentos negativos. Quando você está feliz, sua mente está equilibrada no sentido de pensamentos positivos acompanhada de uma ótima sensação pelo corpo devido às substâncias químicas nele liberadas.

4 - Mente: estado produzido pelo funcionamento de várias regiões do cérebro. Cuidado com a palavra "estado"; ela se aplica a (quase) todos os ramos da ciência, mas é estudada de forma geral na teoria dos sistemas e em sistemas complexos. Uma definição para o leigo seria a de como o sistema, em nosso caso as várias regiões cerebrais, subsistemas do cérebro, estão produzindo a nossa mente, de como ele está no momento. Você está concentrado em uma tarefa? Está pensando em como realizar aquela viagem na próxima semana? Preocupado com o aluguel? Veja que a mente é algo muito dinâmico porque enquanto você pensa em algo, seus olhos podem reparar um carro na rua enquanto seus ouvidos estão captando um barulho de uma reforma em um prédio que te perturba.

O eminente neurocientista português António R. Damásio diz em seu livro, "E o Cérebro Criou o Homem" (Damásio, 2011), que a mente não é só produzida inteiramente no córtex cerebral. Ela é a porção mais recente do cérebro evolutivamente falando, responsável principalmente pela nossa lógica, o raciocínio lógico e maior que nos outros animais em relação ao tamanho cerebral.

Damásio fala também do tronco cerebral, de suas duas divisões, o núcleo do trato solitário e o núcleo parabraquial, e o terceiro seria o colículo superior como produtores da mente. Ele é a maior autoridade mundial no assunto de sentimentos, emoções e consciência no momento, tendo escrito vários livros sobre estes assuntos.

Veja os valores religiosos: informações chegam a uma criança, no próprio meio ambiente social, às dezenas, centenas, sempre, como fatos absolutos da religião local e, quando ela as memoriza e passa a senti-las, levando-a a uma ação ao receber um estímulo, elas estarão definitivamente concretizadas em sua mente. Na verdade os valores ficam com a criança como memórias de emoção. No decorrer da vida alguns poderão mudar ou não, podem se intensificar, etc. 

Padres da igreja católica não casam; bispos evangélicos, cristãos como os padres, casam. Você coloca santos em sua sala mas para outros cristãos isto é absolutamente inadmissível. Mulheres islâmicas escondem todo o corpo nas burkas enquanto no Brasil se mostra quase tudo do corpo. Valores... Islâmicos rezam em direção e sentido à cidade de Meca e os cristãos rezam em qualquer lugar. Hindus e xintoístas adoram muitos deuses e os cristãos a só um. Valores...

Mas o que mais interessa aqui é como esses valores se formam em nossos cérebros.

Dei explicações em parágrafos anteriores de como entender quatro fatos científicos,  a  informação, mente, memória e sentimento. Então como se forma um valor a partir destes fatos neurocientíficos?

Agora entra um conceito da teoria dos sistemas e da ciência da complexidade um tanto difícil de explicar ao leigo, o de propriedades emergentes.

Dois ou mais fenômenos juntos produzem outro que, sozinhos, os primeiros, não conseguiriam realizar. É como ver o novo fenômeno de um plano acima, olhando para aqueles embaixo que o forma.

Darei um exemplo simples: um próton possui características, propriedades como carga e massa. Carga positiva. O elétron possui carga negativa e uma massa muito menor que a do próton. O nêutron possui massa, quase igual a do próton, mas sem carga. Agora imagine uma quantidade infindável deles em um recipiente. Talvez se comportem como um gás, mas, se eles, por algum motivo, se configurarem em átomos de hidrogênio, oxigênio, e produzirem água, terão novas propriedades físico-químicas diferentes das partículas e átomos em separado. Veja que a propriedade emergente - água com propriedades novas -  só apareceu depois que eles se reuniram de maneira especial.

Então, quando eu disse as quatro primeiras palavras deste artigo, "um valor se forma", eu estava me referindo a isto, mas precisei explicar aqueles quatro fatos: informação, mente, memória e sentimento, para até chegar aqui. O valor pode ser considerado como uma propriedade emergente das interações físico-químicas, dos neurônios, em regiões específicas do cérebro.

O valor, seja ele qual for, inclusive o religioso, não precisa de uma alma ou espírito, ou de um deus para existir. Digo deus em "d" minúsculo porque me refiro aos deuses de todas as seitas e religiões que o ser humano inventou. Afinal, matéria e energia comuns já estavam presentes em todas as formas de vida que, em algumas delas, chegaram até nós.


Bibliografia:

CASTRO, A. M. O. Sentindo e agindo. Um novo homem para um novo milênio. Rio de Janeiro: Papel Virtual, 1999.

DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 439 p.

KANDEL, Eric R. Em Busca da Memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. pp. 76-84.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A neurorreligação como o elo descoberto (e não perdido) entre a psiquiatria e a psicologia

Nos anos 70 e 80 eu sempre via calorosas discussões entre a psicologia e psiquiatria. A primeira não gostava ou não achava certo prescrever remédios, ou algo assim, e a psiquiatria prescrevia e não gostava, ou não achava certo as longas sessões de terapias em pacientes com problemas emocionais. Mas, eu pensava, não haveria um meio termo entre o modo de trabalhar desses dois ramos da medicina? Afinal, uma insônia, por exemplo, devido a um distúrbio emocional e que prejudicava a vida de trabalho das pessoas, poderia, em pouco tempo, com medicação,  restabelecer a ordem correta de sono e vigília de quem precisasse. Por outro lado, problemas existenciais, profundos, gerando os péssimos sintomas de ansiedade, angústia e até depressão, poderiam ser curados ou minimizados com sessões com psicólogos. E, enquanto a melhora não vinha, alguns remédios aliviariam esses sintomas tão desagradáveis e incômodos no dia a dia de quem as possuíam.

O meio termo estaria aí, neste sentido.

Acontece algo com frequência, no modo de raciocinar de até cientistas, que limitavam os trabalhos em que estão inseridos: a dificuldade em raciocinar não com uma só variável, mas com duas... ou mais…

Quero aqui mostrar um exemplo, totalmente fora deste assunto, mas que é comum ouvir pessoas discutindo não com um ramo da ciência, mas com um ramo do esporte: a Fórmula - 01 ou qualquer corrida de carros.

Se você estranhar, poderá pensar em uma corrida de carros de passeio, porque sei que dirige e o que mais espero mostrar é a lógica intrínseca neste exemplo.

Vencerá um piloto que for o melhor ou quem possuir o melhor carro? As pessoas se confundem e muito porque aqui entram duas variáveis e não só uma!

Veja, o piloto que chamarei de A é melhor pois já provou durante a sua carreira. O segundo é o B e, estando com um carro mais potente, conseguirá atingir maiores velocidade nos finais das retas e também nas curvas. Manterei outras variáveis, como a estabilidade, erros de marcha, freios, quebra do motor, etc., como fixas.

Não há dúvida que a cada volta a velocidade média de B será maior e ele se distanciará cada vez mais de A. E se você trocar os carros a situação se inverterá.

Agora, imagine se eu fixar uma variável destas duas, o carro. Eu dou dois carros exatamente iguais em potências para os dois pilotos. Também as outras variáveis que falei permanecerão as mesmas. O piloto A ganhará todas as corridas de B porque é mais habilidoso, possui “mais braço”, como se diz na gíria automobilística, que o rival.

E se eu fixar, embora é quase impossível mas vale aqui, os pilotos? Dois exatamentes iguais em reflexo, manobras para ultrapassagem, velocidades nas entradas e saídas das curvas, etc.? Vencerá quem  possuir o carro mais potente!

Então, na antiga briga, e hoje parece que tende a se acabar, entre psiquiatras e psicólogos, a mistura dos trabalhos dos dois é mais eficiente na cura e/ou amenização de problemas emocionais dos pacientes. Até pode ser que em alguns casos a psicologia seja preferida aos remédios e vice-versa.

No meu artigo “A psicoterapia como neurorreligação” -
http://neurorreligacao.blogspot.com.br/2016/10/a-psicoterapia-como-neurorreligacao.html - no nono parágrafo, digo o seguinte: “No excelente artigo ‘Psicoterapia e neurociências: um encontro frutífero e necessário’, da Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, os autores  relatam o seguinte: ‘A Neurociência tem demonstrado que um comportamento pode ser aprendido e aperfeiçoado pela experiência, que altera a ‘voltagem’ das sinapses na rede neural, provendo a formação de novos circuitos neurais e novas memórias, acessíveis em ocasiões posteriores (Kandel, Schuartz & Jessell, 2000).’’

Outro relato diz: “Os estudos com neuroimagem […] objetivam pesquisar alterações anatômicas especialmente relacionadas à volumetria de estruturas encefálicas e funcionais para investigarem alterações na dinâmica do fluxo sanguíneo encefálico, aumento ou decréscimo de ativação nas estruturas e circuitos neurais (Peres & Nasello, 2005).”

Os remédios para a ansiedade, depressão, etc., aumentam ou diminuem a quantidade de neurotransmissores em conjunto de circuitos cerebrais.

Práticas psicológicas e com remédios, e tanto uma quanto à outra, modificam o funcionamento e/ou alteram áreas cerebrais melhorando o comportamento das pessoas.

A neurorreligação faz parte, aparece tanto em uma como na outra e no conjunto das duas: é o benefício atingido pelo esforço mental e/ou com remédios.

Enquanto psicólogos brigavam com os psiquiatras e vice-versa, a neurorreligação estava ali, se iniciando e se consolidando em nível micro, com áreas cerebrais, irrigação sanguínea, maior produção de neurotransmissores ou bloqueando o efeito de outros, etc., a produzir um melhor desempenho em comportamento das pessoas, ou seja, em nível macro.