terça-feira, 25 de outubro de 2016

Religião ou neurorreligação?


Observação: recomendo a leitura de “Esclarecimento sobre a fé para os meus artigos” caso surjam dúvidas sobre a questão da fé: http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2014/04/esclarecimento-sobre-fe-para-os-meus.html
Este artigo:

“Resultados benéficos das terapias, meditações e religiões são faces de um mesmo fenômeno: a neurorreligação.”

Religião significa: "(s.f.) Culto rendido à divindade. / Fé; convicções religiosas, crença: a religião transforma o indivíduo. / Doutrina religiosa: religião cristã. / Tendência para crer em um ente supremo. / Acatamento às coisas santas. / Fig. Coisa a que se vota respeito: o trabalho era para ele uma religião”. (1) Significa também "religar-se", religar-se ao mundo.

É um modo de se ajustar à sociedade em que se vive, de buscar equilíbrio em todos os aspectos possíveis nas vidas das pessoas, e, também, a felicidade, através de orações, cultos, valores religiosos, etc., sendo, a fé, um dos sentimentos mais importantes para tanto.

Mas a Neurociência tem mostrado que os nossos sentimentos e emoções são resultados de atividades cerebrais relacionadas com neurotransmissores, neurônios, sinapses, produção de hormônios, ou seja, nada de sobrenatural influindo em qualquer cérebro ou sistema nervoso de nós seres humanos. E mais: há uma relação íntima entre esses fenômenos e a Teoria da Evolução onde tudo o que sentimos, é o resultado de conjuntos de genes em nossos DNA’s criadores de áreas cerebrais específicas, e que foram decisivos na perpetuação da espécie humana na Terra.

Então defino aqui um conceito, a Neurorreligação, devido ao meu modo de ver o Relativismo Religioso. (2)

A Neurorreligação se baseia nos seguintes fatos:

1 - O acreditar e a fé (3) são sentimentos, mas não sentimentos oriundos de qualquer fator ou ente (s) sobrenatural (s) e sim próprio da evolução do nosso sistema nervoso, especificamente do nosso cérebro. Eles como todos os outros sentimentos e emoções serviram à Evolução para que a espécie humana não se extinguisse.

2 - Existe uma capacidade natural, que nasce conosco, onde, conforme os valores religiosos vão se formando na mente das pessoas, pela influência do meio social, elas direcionam suas energias ao (s) ente (s) divino (s) e crenças aprendidas junto a ele (s). A fé seria uma extensão do acreditar: primeiro você acredita nos valores religiosos. É um sentimento. Depois você passa a, dizendo de forma prática, dar crédito, confiar, orar por um ente divino ou mais (se a sua religião for politeísta), orar pelos poderes associados a essas crenças, etc. (4)

3 - Neste momento você pode passar a se sentir bem, aliviado de sintomas negativos como, por exemplo, a tensão, angústia, ansiedade, sendo que a prática constante e intensa pode curar até depressões ou muitos outros estados emocionais negativos.

4 - Esses sentimentos são devidos à estimulação de áreas cerebrais específicas que introduzem em seu corpo e/ou no seu próprio cérebro, neurotransmissores, hormônios, e/ou substâncias químicas diversas fazendo com que você melhore de seus problemas. Exemplo: quando de uma oração você não está se comunicando com Deus, não está em contato com o sobrenatural de nenhuma espécie. Você, como qualquer outra pessoa de religião diferente, com valores religiosos diferentes, está "forçando" as áreas cerebrais responsáveis por sentimentos e emoções.

5 - Mas qualquer terapia, psicológica junto ou não à psiquiátrica, ou outra qualquer, e meditações, podem também estimular os seus neurônios a produzirem substâncias químicas a melhorar a sua condição mental.

6 - Quero dizer que as religiões, terapias e meditações estão em um mesmo patamar, não de eficácia, mas de finalidade para as pessoas se religarem ao mundo, se ajustarem às suas vidas, controlarem as suas emoções.

É evidente que as religiões, por terem os seus valores passados às pessoas desde quando crianças poderão ser mais eficazes, inclusive em um número maior de casos.
Considero clássicas as experiências do neurocientista estadunidense Andrew Newberg, onde freiras cristãs e monges budistas foram submetidos a tomógrafos computadorizados enquanto as primeiras rezavam e os monges meditavam. Veja um trecho (5) do texto publicado em uma revista de divulgação científica aqui no Brasil:
“No momento do transe, a área do cérebro responsável pelo sentido de orientação tem sua atividade reduzida, daí a sensação de desligamento com o corpo, relatada por quem passa por profundas experiências espirituais. É o que contam sentir os religiosos que passam por experiências sensoriais. ‘No momento de uma longa prece, sinto um aquietar da mente, uma sensação de paz interior e elevação espiritual. E também um sentimento de plenitude, como se a presença do Criador estivesse permeando meu ser’, relatou uma freira americana que participou das pesquisas.”

Newberg acredita em encontrar Deus na química dos neurônios, diferente do que digo aqui, mas, de qualquer maneira, suas experiências revelam a força da concentração, do esforço do pensar e ao mesmo tempo de ter fé em valores religiosos ou na filosofia, neste caso, budista. Tanto as freiras quantos os monges, diferindo radicalmente em muitas crenças, atingem estados mentais bem próximos, modificando o funcionamento da mesma área cerebral.

E para você ter uma ideia da diferença em crenças do cristianismo do budismo, basta saber que, para este último, o Deus  cristão  não  existe!

Concluindo, neurorreligação “é o resultado que se obtém ao nos concentrarmos, nos valores religiosos, nas terapias ou meditações, modificando o funcionamento de áreas cerebrais em nível de neurônios, neurotransmissores, hormônios, e outras substâncias químicas, para nos sentirmos bem”. As terapias, religiões e meditações são então neurorreligações.

E pode parecer estranho a frase “nos concentrarmos, seja em valores religiosos, terapias ou meditações…”, porque coloquei “valores religiosos” junto com terapias e meditações. Dá impressão que desrespeito a religião brasileira, coloco-a para baixo. O problema é que em nossa sociedade, em nosso meio ambiente social, predomina o culto ao cristianismo, onde se acha que ele é absoluto, o único verdadeiro, tendo as suas verdades como absolutas. Mas como em tudo neste blog eu defendo a ideia do Relativismo Religioso, porque, também, todas as religiões do mundo, em todas as épocas em que existiram ou ainda existem, se consideravam e se consideram absolutas, as únicas donas das verdades.

Qual estará certa? Nenhuma. Todas foram obras das mentes das pessoas.

O sobrenatural não existe.


Bibliografia:

1 - Dicionário Aurélio On Line - Brasil. Disponível em: http://www.dicionariodoaurelio.com/Religiao.html. Acesso em 25/05/2014

2 - Ver todos os artigos do blog “O relativismo religioso - Como eu o vejo”
 - http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br - principalmente:

Neurociência e como se formam os valores religiosos em nosso cérebro -
http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2017/04/neurociencia-e-como-se-formam-os.html 
3 - O acreditar e a fé como vantagens evolutivas. Argos Arruda Pinto. Disponível em: http://finalizacaoargos.blogspot.com.br/2008/02/o-acreditar-e-f-como-vantagens.html. Acesso em: 25/05/2014.

4 - É como se o cérebro enganasse a si mesmo mas você pode pensar de outra forma pois senão poderá duvidar e muito desta minha afirmação: o ser humano cria entes imaginários, atribui valores a eles, poderes, acreditando e colocando neles a fé que é tão poderosa. E não se pode provar que existem nem questionar porque seria heresia, blasfêmia. Tudo isto é passado de geração à geração em um povo ou região e acaba sendo tomado como uma verdade absoluta. Resumidamente, as religiões hoje existentes, algumas com mais de um bilhão de adeptos como o cristianismo, hinduísmo e o islamismo, começaram assim.

5 - Espiritualidade: A genética da fé. Carla Aranha. Revista SUPERINTERESSANTE. Disponível em: http://super.abril.com.br/cultura/espiritualidade-genetica-fe-446288.shtml. Acesso em: 25/05/2014.
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