terça-feira, 18 de outubro de 2016

A psicoterapia como neurorreligação

Palavras-chave: neurociência, psicologia, psicoterapia, psicofisiologia

Introdução: a psicoterapia, com os seus resultados benéficos para as pessoas, produz, em termos microscópicos, modificações estruturais e funcionais em várias regiões do cérebro, que são chamadas de neuroplasticidade. A pessoa se religa ao mundo social, afetivo e de trabalho. Daí o conceito de neurorreligação.


Certa vez eu vi uma fotografia microscópica de uma quantidade anormal de neurotransmissores nas sinapses de neurônios de uma área cerebral de um rato. Essa quantidade era a de um pico quando o pequeno animal aprendeu o caminho em um labirinto para se chegar a um pedaço de queijo.

Sinto eu não ter uma reprodução aqui e também só me lembro de ser uma reportagem no jornal “A Folha de São Paulo” da década de 90. Mas o que ficou de importante para mim fora a ligação de prazo indeterminado entre os neurônios, ou seja, o rato dificilmente esqueceria a trajetória  de  sua alimentação.

Dei este exemplo simples como um caráter introdutório neste artigo. Voltarei a ele mais abaixo.

A psicoterapia é uma forma de tratamento de distúrbios e doenças mentais havendo uma interação entre um profissional e o paciente, onde, por intermédio de conversas entre os dois, o paciente acaba conhecendo melhor os seus problemas, e, por isto, aprender a resolvê-los. Nesta interação o paciente também aprende a melhor se adaptar e agir no meio ambiente social em que vive, melhorando a própria qualidade de vida e a inteligência emocional como um todo. Como efeitos de longo prazo, novas capacidades e competências são adquiridas em nível da personalidade, aumento da autoestima, um posicionamento mais eficaz perante a vida.

A Psicologia é a Ciência de onde a psicoterapia se origina, sendo o surgimento da primeira remontando a Aristóteles (384 - 322 a.C.) quando ele escreveu um “manual” de nome “Acerca da Alma” e, em 1590, o filósofo alemão Rodolfo Goclenio criou o termo psicologia usado até hoje.

No início do século XIX surgiram aqui no ocidente as psicoterapias com influências de escolas filosóficas na tentativa de modificar, remover, tratar sintomas de natureza emocional e favorecer o desenvolvimento da personalidade.

Hoje os cientistas dispõe de aparelhos sofisticados para “enxergarem”, através das neuroimagens, uma palavra cada vez mais comum na medicina, o funcionamento e/ou alterações dos interiores dos nossos cérebros. Utilizam, por exemplo, a tomografia por emissão de fóton único (SPECT), a tomografia por emissão de pósitrons (PET), a ressonância magnética funcional (fMRI) e a ressonância magnética espectroscópica (MRS). Assim desvendam o que acontece com a estrutura neural em diversas regiões dos cérebros de pacientes submetidos a essas adiantadas e refinadas técnicas científicas.

A fotografia que eu vi dos neurotransmissores do rato provavelmente foi uma neuroimagem. Para um leitor desatento aquilo fora uma brincadeira satisfazendo a curiosidade de alguns, mas, para o pequeno animal, era a própria sobrevivência que estava em jogo. Ele iria gastar o tanto de energia possível a descobrir o caminho correto.

No excelente artigo “Psicoterapia e neurociências: um encontro frutífero e necessário”, da Revista Brasileira de Terapias Cognitivas,¹ os autores²  relatam o seguinte: “A Neurociência tem demonstrado que um comportamento pode ser aprendido e aperfeiçoado pela experiência, que altera a ‘voltagem’ das sinapses na rede neural, provendo a formação de novos circuitos neurais e novas memórias, acessíveis em ocasiões posteriores (Kandel, Schuartz & Jessell, 2000)”.

Outro relato diz: “Os estudos com neuroimagem […] objetivam pesquisar alterações anatômicas especialmente relacionadas à volumetria de estruturas encefálicas e funcionais para investigarem alterações na dinâmica do fluxo sanguíneo encefálico, aumento ou decréscimo de ativação nas estruturas e circuitos neurais (Peres & Nasello, 2005)”.

Aqui entra o ponto em questão deste texto: conversas entre um paciente e um profissional alterando estruturas cerebrais e consequentemente comportamentos. Estou simplificando o raciocínio pois o tratamento poderá conter consultas a um psiquiatra, realizações de meditações, etc.

Espera-se da psicoterapia uma melhora na qualidade de vida através de comportamentos mais adaptados, pensamentos mais racionais e uma melhora na inteligência emocional como um todo. Isto é uma religação ao mundo no sentido de deixarem as pessoas mais felizes. E o que acontece no cérebro? Modificações estruturais e/ou funcionais.

No meu primeiro artigo “A Base Material dos Sentimentos”,³ eu digo de uma possível revolução filosófica-científica, em que o conceito de alma ou espírito poderá sofrer grandes modificações pois o que a Neurociência e ciências afins descobrem, nos mostram um cérebro em que nada funciona dependendo de uma alma. Tudo indica que o nosso órgão mais complexo é autossuficiente, não precisando de algo imaterial a realizar todas suas funções.

Na verdade todas as terapias, e são muitas por aí, são neurorreligações a proporcionarem tudo de positivo que as pessoas buscam e que citei neste texto. Umas mais eficazes para certas pessoas, outras não, umas mais caras, outras menos, etc.



Notas:

1 - Revista Brasileira de Terapias Cognitivas -

Versão impressa ISSN 1808-5687

Rev. bras. ter. cogn. - v.1 n.2 - Rio de Janeiro - dez. 2005.



2 - Julio Fernando Prieto Peres - Doutorando em Neurociência e Comportamento. Instituto de Psicologia Universidade de São Paulo

e

Antonia Gladys Nasello - Doutorado pela Universidade Nacional de Córdoba, Argentina e pela Universidade de São Paulo. Professora Adjunta. Departamento de Ciências Fisiológicas. Faculdade de Ciências da Medicina da Santa Casa de São Paulo

Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872005000200003>. Acesso em: 03/05/2017


3 - A Base Material dos Sentimentos. Revista Cérebro & Mente. (www.cerebromente.org.br). Argos Arruda Pinto. Disponível em: <http://www.cerebromente.org.br/n12/opiniao/sentimentos.html>. Acesso em: 03/05/2017
Postar um comentário