terça-feira, 18 de abril de 2017

Neurociência e como se formam os valores religiosos em nosso cérebro

Um valor se forma quando uma ou mais informações, chegando à sua mente, são memorizadas e têm a capacidade de, quando estimulada por algum fato futuro qualquer, gerar um sentimento que o levará a agir. É uma memória de emoção, em relação a algo material ou abstrato pelo qual nós seres humanos temos consideração, apreço, sentimento.

Simples assim? Não! Por trás de uma frase desta existe mais ciência do que você possa imaginar. Existem centenas de anos de pesquisas e descobrimentos, cientistas dando suas vidas pela verdade e nem sempre tendo sucesso, mas, não entrarei no assunto da história da ciência.

Quero esclarecer neste artigo algo que sempre digo: "a partir da infância uma criança terá os seus sentimentos 'canalizados' a acreditarem nos valores religiosos". Valores passados pelos pais, amigos, parentes, a religião local, as escolas, etc., enfim, do meio ambiente social. E por esses valores as pessoas se unem, fazem bem ao próximo, mas, também se matam!

Como é possível existir comportamentos tão antagônicos? Não é tão simples responder, mas entra aí a intolerância com os valores das outras religiões, o fato de cada uma achar os seus valores absolutos, de serem verdades absolutas e competirem diretamente uma com as outras de forma muitas vezes desastrosa. Ainda que no Brasil exista muita tolerância, reconhecida por outros países, lá fora é muito diferente.

Em meu texto "O paradoxo dos gêmeos religiosos" <http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/search?updated-min=2008-01-01T00:00:00-02:00&updated-max=2009-01-01T00:00:00-02:00&max-results=2>, digo da diferença de dois irmãos criados separadamente em meios sociais diversos onde as suas religiões são diferentes. Irão estranhar as crenças um do outro, os valores religiosos.

Veja, educados em culturas onde as informações que receberam não eram iguais, formarão muitos valores incompatíveis entre si. E é aí que entrarão em conflito se não houver tolerância. No texto falo, sendo um cristão e outro muçulmano... O cristão: "Deus é pai de Cristo e este veio ao mundo para nos salvar. A Bíblia é o seu livro sagrado onde existem ensinamentos dos Dois. O muçulmano dirá que acredita em Cristo, mas que ele fora apenas - e aqui já começa a briga - um profeta em nível terreno e humano. Maomé, inclusive não citado na Bíblia, é o profeta que escreveu um livro sobre tudo o que o deus Alá queria para o povo na Terra. O livro é o Corão e nem queira dizer a eles que o que está escrito lá não tem nada a ver com a nossa realidade neste mundo!".

Receberam informações diferentes que, memorizadas, possuem a capacidade de gerarem ações diferentes ou, no mínimo, com muita incompatibilidade porque os sentimentos são diferentes. E nem preciso dizer o quanto os sentimentos são poderosos em nossas vidas.

Mas no primeiro parágrafo temos conceitos científicos relacionados com valor. São eles: informação, mente, memória e sentimento. Estes conceitos foram um a um compreendidos pela neurociência como manifestações das atividades neurônicas em nosso cérebro que descrevo aqui:

1 - Informação: os neurônios transmitem informações entre eles sendo as unidades básicas no cérebro, responsáveis por esse fenômeno. E esse fenômeno já é conhecido há muito tempo desde a década de, pasmem, 1890, quando o neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) descreveu o que se chamou de "a teoria do neurônio", a teoria da organização neural, com quatro princípios:
1a. Existe uma célula, que Cajal chamou de neurônio, que é a unidade de sinalização elementar do sistema nervoso;
2a. O prolongamento de um neurônio, o axônio (transmissão), se comunica com os dendritos (recepção) de outros neurônios em uma região chamada fenda sináptica. Mais tarde os cientistas descobriram que o impulso só passa de um neurônio para outro com a presença de substâncias químicas, os   neurotransmissores, se acumulando nessa região que é vazia, fenômeno esse conhecido como sinapse;
3a. Um neurônio se comunicará somente com células específicas e não com outras;
4a. Dentro de um neurônio o sinal viaja somente em uma direção e sentido. Com isto é possível rastrear como o sinal se comunica com as outras células nervosas.

Feito isto, Cajal, recebendo o Nobel de 1906 de fisiologia ou medicina, estabeleceu as bases do funcionamento cerebral em termos simples que são os neurônios.

2 - Memória: existe uma base química para a memória descoberta pelo cientista americano Eric R. Kandel, Nobel de fisiologia ou medicina em 2000, em que ele brilhantemente explica no livro "Em Busca da Memória" (Kandel, 2009).

Existe a memória de curto prazo e a memória de longo prazo, onde a primeira é um fortalecimento das sinapses com uma maior liberação de neurotransmissores. Já na segunda acontecem dois fenômenos: substâncias estimulando um gene do neurônio a produzir novos prolongamentos do axônio para haver mais sinapses e também se aumentando a produção de neurotransmissores do que na memória de curto prazo. Uma observação tem que ser feita aqui: nas duas ocorrem interações de diversas substâncias químicas não sendo viável descrevê-las em um texto simples e pequeno como este.

3 - Sentimento: sensação devido a estímulo (s) externo (s) ou interno (s) fazendo com que haja ou não a liberação de neurotransmissores em neurônios de diversas áreas cerebrais em conjunto, ocorrendo ou não a liberação de hormônios e/ou neurotransmissores pelo nosso corpo. É bom salientar que nós percebemos uma sensação ou um sentimento não só em nossos cérebros, mas também pelo corpo. Por exemplo, o alívio de uma angústia com o alívio de uma sensação ruim em nosso peito acompanhada do desaparecimento também de pensamentos negativos. Quando você está feliz, sua mente está equilibrada no sentido de pensamentos positivos acompanhada de uma ótima sensação pelo corpo devido às substâncias químicas nele liberadas.

4 - Mente: estado produzido pelo funcionamento de várias regiões do cérebro. Cuidado com a palavra "estado"; ela se aplica a (quase) todos os ramos da ciência, mas é estudada de forma geral na teoria dos sistemas e em sistemas complexos. Uma definição para o leigo seria a de como o sistema, em nosso caso as várias regiões cerebrais, subsistemas do cérebro, estão produzindo a nossa mente, de como ele está no momento. Você está concentrado em uma tarefa? Está pensando em como realizar aquela viagem na próxima semana? Preocupado com o aluguel? Veja que a mente é algo muito dinâmico porque enquanto você pensa em algo, seus olhos podem reparar um carro na rua enquanto seus ouvidos estão captando um barulho de uma reforma em um prédio que te perturba.

O eminente neurocientista português António R. Damásio diz em seu livro, "E o Cérebro Criou o Homem" (Damásio, 2011), que a mente não é só produzida inteiramente no córtex cerebral. Ela é a porção mais recente do cérebro evolutivamente falando, responsável principalmente pela nossa lógica, o raciocínio lógico e maior que nos outros animais em relação ao tamanho cerebral.

Damásio fala também do tronco cerebral, de suas duas divisões, o núcleo do trato solitário e o núcleo parabraquial, e o terceiro seria o colículo superior como produtores da mente. Ele é a maior autoridade mundial no assunto de sentimentos, emoções e consciência no momento, tendo escrito vários livros sobre estes assuntos.

Veja os valores religiosos: informações chegam a uma criança, no próprio meio ambiente social, às dezenas, centenas, sempre, como fatos absolutos da religião local e, quando ela as memoriza e passa a senti-las, levando-a a uma ação ao receber um estímulo, elas estarão definitivamente concretizadas em sua mente. Na verdade os valores ficam com a criança como memórias de emoção. No decorrer da vida alguns poderão mudar ou não, podem se intensificar, etc. 

Padres da igreja católica não casam; bispos evangélicos, cristãos como os padres, casam. Você coloca santos em sua sala mas para outros cristãos isto é absolutamente inadmissível. Mulheres islâmicas escondem todo o corpo nas burkas enquanto no Brasil se mostra quase tudo do corpo. Valores... Islâmicos rezam em direção e sentido à cidade de Meca e os cristãos rezam em qualquer lugar. Hindus e xintoístas adoram muitos deuses e os cristãos a só um. Valores...

Mas o que mais interessa aqui é como esses valores se formam em nossos cérebros.

Dei explicações em parágrafos anteriores de como entender quatro fatos científicos,  a  informação, mente, memória e sentimento. Então como se forma um valor a partir destes fatos neurocientíficos?

Agora entra um conceito da teoria dos sistemas e da ciência da complexidade um tanto difícil de explicar ao leigo, o de propriedades emergentes.

Dois ou mais fenômenos juntos produzem outro que, sozinhos, os primeiros, não conseguiriam realizar. É como ver o novo fenômeno de um plano acima, olhando para aqueles embaixo que o forma.

Darei um exemplo simples: um próton possui características, propriedades como carga e massa. Carga positiva. O elétron possui carga negativa e uma massa muito menor que a do próton. O nêutron possui massa, quase igual a do próton, mas sem carga. Agora imagine uma quantidade infindável deles em um recipiente. Talvez se comportem como um gás, mas, se eles, por algum motivo, se configurarem em átomos de hidrogênio, oxigênio, e produzirem água, terão novas propriedades físico-químicas diferentes das partículas e átomos em separado. Veja que a propriedade emergente - água com propriedades novas -  só apareceu depois que eles se reuniram de maneira especial.

Então, quando eu disse as quatro primeiras palavras deste artigo, "um valor se forma", eu estava me referindo a isto, mas precisei explicar aqueles quatro fatos: informação, mente, memória e sentimento, para até chegar aqui. O valor pode ser considerado como uma propriedade emergente das interações físico-químicas, dos neurônios, em regiões específicas do cérebro.

O valor, seja ele qual for, inclusive o religioso, não precisa de uma alma ou espírito, ou de um deus para existir. Digo deus em "d" minúsculo porque me refiro aos deuses de todas as seitas e religiões que o ser humano inventou. Afinal, matéria e energia comuns já estavam presentes em todas as formas de vida que, em algumas delas, chegaram até nós.


Bibliografia:

CASTRO, A. M. O. Sentindo e agindo. Um novo homem para um novo milênio. Rio de Janeiro: Papel Virtual, 1999.

DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 439 p.

KANDEL, Eric R. Em Busca da Memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. pp. 76-84.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A neurorreligação como o elo descoberto (e não perdido) entre a psiquiatria e a psicologia

Nos anos 70 e 80 eu sempre via calorosas discussões entre a psicologia e psiquiatria. A primeira não gostava ou não achava certo prescrever remédios, ou algo assim, e a psiquiatria prescrevia e não gostava, ou não achava certo as longas sessões de terapias em pacientes com problemas emocionais. Mas, eu pensava, não haveria um meio termo entre o modo de trabalhar desses dois ramos da medicina? Afinal, uma insônia, por exemplo, devido a um distúrbio emocional e que prejudicava a vida de trabalho das pessoas, poderia, em pouco tempo, com medicação,  restabelecer a ordem correta de sono e vigília de quem precisasse. Por outro lado, problemas existenciais, profundos, gerando os péssimos sintomas de ansiedade, angústia e até depressão, poderiam ser curados ou minimizados com sessões com psicólogos. E, enquanto a melhora não vinha, alguns remédios aliviariam esses sintomas tão desagradáveis e incômodos no dia a dia de quem as possuíam.

O meio termo estaria aí, neste sentido.

Acontece algo com frequência, no modo de raciocinar de até cientistas, que limitavam os trabalhos em que estão inseridos: a dificuldade em raciocinar não com uma só variável, mas com duas... ou mais…

Quero aqui mostrar um exemplo, totalmente fora deste assunto, mas que é comum ouvir pessoas discutindo não com um ramo da ciência, mas com um ramo do esporte: a Fórmula - 01 ou qualquer corrida de carros.

Se você estranhar, poderá pensar em uma corrida de carros de passeio, porque sei que dirige e o que mais espero mostrar é a lógica intrínseca neste exemplo.

Vencerá um piloto que for o melhor ou quem possuir o melhor carro? As pessoas se confundem e muito porque aqui entram duas variáveis e não só uma!

Veja, o piloto que chamarei de A é melhor pois já provou durante a sua carreira. O segundo é o B e, estando com um carro mais potente, conseguirá atingir maiores velocidade nos finais das retas e também nas curvas. Manterei outras variáveis, como a estabilidade, erros de marcha, freios, quebra do motor, etc., como fixas.

Não há dúvida que a cada volta a velocidade média de B será maior e ele se distanciará cada vez mais de A. E se você trocar os carros a situação se inverterá.

Agora, imagine se eu fixar uma variável destas duas, o carro. Eu dou dois carros exatamente iguais em potências para os dois pilotos. Também as outras variáveis que falei permanecerão as mesmas. O piloto A ganhará todas as corridas de B porque é mais habilidoso, possui “mais braço”, como se diz na gíria automobilística, que o rival.

E se eu fixar, embora é quase impossível mas vale aqui, os pilotos? Dois exatamentes iguais em reflexo, manobras para ultrapassagem, velocidades nas entradas e saídas das curvas, etc.? Vencerá quem  possuir o carro mais potente!

Então, na antiga briga, e hoje parece que tende a se acabar, entre psiquiatras e psicólogos, a mistura dos trabalhos dos dois é mais eficiente na cura e/ou amenização de problemas emocionais dos pacientes. Até pode ser que em alguns casos a psicologia seja preferida aos remédios e vice-versa.

No meu artigo “A psicoterapia como neurorreligação” -
http://neurorreligacao.blogspot.com.br/2016/10/a-psicoterapia-como-neurorreligacao.html - no nono parágrafo, digo o seguinte: “No excelente artigo ‘Psicoterapia e neurociências: um encontro frutífero e necessário’, da Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, os autores  relatam o seguinte: ‘A Neurociência tem demonstrado que um comportamento pode ser aprendido e aperfeiçoado pela experiência, que altera a ‘voltagem’ das sinapses na rede neural, provendo a formação de novos circuitos neurais e novas memórias, acessíveis em ocasiões posteriores (Kandel, Schuartz & Jessell, 2000).’’

Outro relato diz: “Os estudos com neuroimagem […] objetivam pesquisar alterações anatômicas especialmente relacionadas à volumetria de estruturas encefálicas e funcionais para investigarem alterações na dinâmica do fluxo sanguíneo encefálico, aumento ou decréscimo de ativação nas estruturas e circuitos neurais (Peres & Nasello, 2005).”

Os remédios para a ansiedade, depressão, etc., aumentam ou diminuem a quantidade de neurotransmissores em conjunto de circuitos cerebrais.

Práticas psicológicas e com remédios, e tanto uma quanto à outra, modificam o funcionamento e/ou alteram áreas cerebrais melhorando o comportamento das pessoas.

A neurorreligação faz parte, aparece tanto em uma como na outra e no conjunto das duas: é o benefício atingido pelo esforço mental e/ou com remédios.

Enquanto psicólogos brigavam com os psiquiatras e vice-versa, a neurorreligação estava ali, se iniciando e se consolidando em nível micro, com áreas cerebrais, irrigação sanguínea, maior produção de neurotransmissores ou bloqueando o efeito de outros, etc., a produzir um melhor desempenho em comportamento das pessoas, ou seja, em nível macro.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Das religiões até a neurorreligação

Você já procurou saber quantas religiões existem atualmente? Aproximadamente 10.000. (1) E quantas já existiram? Por volta de 100.000. (2)

Por que tantas religiões e, consequentemente, tantas crenças e valores religiosos? Sim, porque cada uma delas leva consigo um número muito grande de valores, como, por exemplo, no cristianismo: Deus, Espírito Santo, a oração Pai Nosso, o terço para orações, a cruz de Cristo, o batismo, o sacramento, etc. E mesmo dentro do cristianismo, o que é um valor não o é para outra corrente como o protestantismo. Evangélicos não adotam a oração Ave Maria porque Maria, mãe de Cristo, não é considerada uma Santa, assim como todos os outros santos da Igreja Católica não são valores para eles. Criticam seriamente essa posição do catolicismo.

Tudo isto muitas pessoas sabem.

Mas você, provavelmente cristão, brasileiro, pois escrevo em português, no Brasil, acreditaria em um deus, rezaria para melhorar o seu nível financeiro sendo que ele  possui corpo de homem e cabeça de elefante? Certamente não. Você poderia rezar para o Deus cristão, amorfo, ensinado assim pelos seus pais, escola, parentes, amigos, etc., mas, tenho certeza que acharia ridículo um deus com cabeça de elefante.

Esse deus se chama Ganesh e é um deus do hinduísmo, religião politeísta muito praticada na Índia. E saiba que o número de pessoas adorando a esse deus é maior que a população do Brasil!

Dou este exemplo em meio a um número imenso de outros porque falo de algo não muito comentado e explicado por aí: o relativismo religioso.

Cada religião diz que os seus valores religiosos são únicos e verdadeiros, absolutos, mas, na verdade, não são. Você acha que só você, sua família, parentes, etc., são felizes por praticarem a cristandade? Você acha que as outras religiões, pagãs na visão da sua sociedade, não proporcionam nenhum conforto “espiritual”, (3) bem-estar aos próprios adeptos? Se sim está enganado. E por aí pode-se contar um número muito grande de situações benéficas aos adeptos de cada uma das religiões do planeta.

Digamos que você reconheça a veracidade do relativismo. E então irei além.

Existe algo de absoluto em todas as religiões mas devemos pensar com cuidado: o acreditar e a fé. Eles são absolutos dentro de cada uma, não fora delas. Você reza a Deus para ter melhores êxitos financeiros, afinal, acredita Nele e põe fé. O hindu reza a Ganesh. Ele nunca rezaria ao Deus cristão pois não acredita nele, não fora ensinado sobre o cristianismo e, consequentemente, não formou em sua mente esse valor religioso. Exceções quando uma pessoa muda de religião não contam. Existem poucas perto dos bilhões de indivíduos praticantes das duas. Ou de outras.

Então como ficamos, quer dizer, o acreditar e a fé são sentimentos e são absolutos, são importantes para o bem-estar das pessoas, promovem uma força interior enorme a quem utiliza as práticas religiosas. Lembre-se, cada qual dentro do seu conjunto de crenças.

E ainda você poderia questionar sobre os ateus. Mas eles acreditam neles mesmos, colocam uma carga de fé muito grande neles mesmos, resultando em um poder próprio a levarem as suas vidas de maneira próspera ou satisfatória como qualquer pessoa religiosa. Aqui então estaria mais uma evidência do absolutismo do acreditar e da fé, do poder desses sentimentos,  no caso, sem se precisar de entes divinos e outros valores religiosos.

O ser humano dotado de consciência e inteligência está aqui na Terra há muito tempo: de 200 a 300 mil anos aproximadamente. Em muitos textos do meu blog
“O Relativismo das Religiões” < http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br>, se você não estiver nele, eu
menciono algo em que acredito ser uma das razões mais fortes para seres com consciências próprias  perpetuarem a sua espécie: acreditar e possuir fé em entes divinos, em valores decorrentes desses mesmos, etc. Mas esses entes não precisam ser reais e aqui está o ponto principal dos meus argumentos. Entrarei primeiro no assunto da consciência para depois chegar até eles e na neurorreligação.

Ela é um dos maiores problemas para os cientistas resolverem. Basicamente o cérebro se volta a si mesmo, reconhece suas ações como sendo dele, corrige erros após verificar o que fez de errado, etc. Talvez mais difícil de entender é a autoconsciência: a consciência possui consciência de si própria. Nós temos consciência dela...

O matemático austríaco, Kurt Gödel (28/04/1906 - 14/01/1978), em 1931, formulou um importante teorema matemático filosófico, o Teorema da Incompletude, onde ele diz não ser possível para qualquer teoria baseado na teoria dos números, verificar  sua própria consistência. (4) Qualquer sistema não se voltaria a si mesmo para verificar suas asserções  mas o cérebro sim.

Já o neurologista e neurocientista português radicado nos Estados Unidos, António Damásio, veio com uma nova perspectiva a respeito do assunto. Para ele o problema da consciência é o do sentir e não somente algo lógico como processamento de dados por neurônios. Difícil e não compensador para você se eu entrar em detalhes aqui. Então recomendo a leitura de um resumo das principais ideias dele que fiz chamado “Sobre a consciência”. O link:
http://neuconblog.blogspot.com.br/2013/04/por-argos-arruda-pinto.html. Ou para se aprofundar ainda mais, o livro “O Mistério da Consciência” do António Damásio. (5)

Basta eu dizer neste texto sobre a consciência central e a ampliada tais como foram definidas por Damásio. A central faz com que o indivíduo reconheça a si mesmo como separado do meio ambiente. Ele existe, sabe disso, independente do mundo em que vive. Existe uma separação entre os dois. A ampliada está relacionada com a história de vida da pessoa, com o que já lhe aconteceu no passado, as influências resultantes no presente e  basicamente são as suas memórias reconhecendo que você mesmo foi o protagonista das suas histórias. É a que estamos acostumados com respeito as nossas vidas.

A consciência nos ajuda em nossa inteligência. Por exemplo, ao pensar: “tenho algumas dívidas e preciso me esforçar para acertá-las logo”, sem percebermos, a usamos três vezes sem nos darmos conta. Veja: “(eu) tenho” e “(eu) preciso me (a mim)  esforçar...”. Se você se interessar mais pelo assunto leia o meu artigo “O valor da consciência em nossos raciocínios”. Link:

Mas a consciência traz consigo, a quem possui, problemas difíceis de resoluções. O indivíduo passa a questionar sobre a própria existência, entrando em um labirinto muito amplo e intrincado onde seu estado emocional poderá ser afetado. São questões como “de onde eu venho?”, “qual o sentido da vida?”, “quem criou tudo o que me cerca?”, “Por que estou aqui?” e a mais perturbadora de todas: “para onde irei após a morte?”. Somos dotados de amor-próprio e não queremos morrer, queremos o melhor para nós…

Surgem questionamentos não só sobre a própria existência mas com o que, em grupos ou aldeias, comunidades ou cidades, eles haviam construído, em todo um contexto de se viver melhor. Organizações sociais simples desde os tempos dos chamados caçadores-coletores, das proto-cidades há alguns milênios, poderiam ou foram  destruídas por catástrofes, guerras, condições do clima, escassez de caça e/ou pesca, etc., e,  qual seria a explicação de tanto esforço e luta em vão? Não haveria sentido! Regras, “leis”, chefes, etc., toda essa estrutura difícil de criar e manter, de se lidar diariamente por anos e anos para de repente desaparecer?

E o que dizer dos rompimentos afetivos, devido à morte ou de outras maneiras, com familiares, os casais, os filhos, pais, irmãos, com a péssima sensação de impotência diante do fato de que não se veriam mais? Qual enorme peso poderia aguentar as cabeças de mortais como eles?

E nós agora? O mesmo terror outrora experimentado por um caçador-coletor diante de um predador é o mesmo ao percebermos um ladrão armado dentro de nossas casas. Mudaram as formas do viver mas a consciência continua, de um lado, a perturbarmos, com a ajuda da nossa inteligência, e fazer com que a maioria das pessoas adotem e pratiquem ritos e religiões.

Realmente considero estas questões muito importantes onde o ser humano teve que lidar desde quando adquiriu consciência de si próprio e do mundo que o rodeia. Colocando em xeque o lado emocional de si, as pessoas (6) teriam suas vidas social e sexual comprometidas  pondo em risco a sobrevivência da espécie. Afinal de que adiantariam  corpos fortes em mentes perturbadas, doentes?

A pressão sobre o funcionamento dos cérebros com consciência era muito grande e, então, algo aconteceu.

A seleção natural filtrou cérebros com peculiaridades importantes. Aqueles que pudessem transcender, (7) conceber entes divinos, não reais, para depois se  formularem crenças e  estórias baseadas neles ou relativas a eles.

Como exemplo, as pessoas atribuíam a vários ou a um só deus como criadores de tudo, reinando sobre as manifestações da natureza, sobre as suas vidas e a dos outros animais, sobre o estado das coisas, de tudo o que não era explicável…

Da época dos caçadores-coletores até há milênios, com o estabelecimento de religiões bem estruturadas, com muitos adeptos e que existem até hoje, nós humanos tivemos dezenas de milhares de anos  de criação e desenvolvimento de muitas religiões, conjuntos de seitas, crenças, etc. Fazer aqui um resumo da história das religiões seria impossível mas pense na necessidade de se criar valores para garantir a sanidade mental diante de um mundo complexo, violento, imprevisível e incompreensível. (8)

O ser humano passou a se valer (e se vale) de recursos mentais muito fortes, onde informações entravam e se fixavam em regiões cerebrais, juntas com sentimentos e emoções, formando valores religiosos a ajudar-lhe em muitas situações onde o seu lado emocional era e é muito exigido.

Resumidamente, o homem confere a um ou mais entes divinos a resolução de muitos de seus problemas, àqueles onde não se mais possui controle, à explicação de fatos naturais, etc., e, se não houver êxito, se utiliza da famosa frase “ele quis assim”, onde ele é qualquer deus de qualquer religião. A aceitação, a resignação...

Aqui está minha tese onde as práticas religiosas, de todas as religiões, (9) mexem com áreas específicas cerebrais, fazendo com que pessoas se religuem às suas vidas normais depois de problemas emocionais, depressões, transtornos de ansiedade, recaídas prolongadas com respeito a drogas e álcool, etc., e a denomino de neurorreligação.

Através dessas práticas, um conjunto de esforços em cima da memória junto com sentimentos e emoções, com respeito a esses valores, áreas cerebrais são ativadas, modificando e/ou influenciando outras áreas e assim fortalecendo a  estrutura emocional das pessoas.

Mas a neurorreligação também se encontra nas terapias e meditações como já escrevi sobre isto. (10) Ela pode ser vista também como simplesmente a volta de comportamentos normais, em relação à vida social, do indivíduo com a família, trabalho e à vida afetiva.


Notas:

1 - Publicado em: GOSPELPRIME. Disponível em:

2 - WILSON, E. O. Da Natureza Humana. São Paulo: T. A. QUEIROZ: Editora da Universidade de São Paulo. 1981. p. 169.

3 - Coloco entre aspas pois para mim o espiritual não existe e sim o psicológico, o mental.

4 - GOLDSTEIN, R. Incompletude: A prova e o paradoxo de Kurt Gödel. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 20.

5 - DAMÁSIO, A. R. O Mistério da Consciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 474 p.

6 - Meus artigos:

7 - Meu artigo: Consciência, amor-próprio, fé e transcendência < http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2013/06/consciencia-amor-proprio-fe-e.html  >

8 - Meu artigo: O surgimento de uma religião como uma necessidade humana

9 - Disse o neurocientista Andrew Newberg: “não importa qual é a religião, o importante é praticá-la”. Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI65037-15224,00-NAO+IMPORTA+QUAL+A+RELIGIAO+O+IMPORTANTE+E+PRATICALA.html>. Acesso em: 19/10/2015.

10 - Meus artigos: A meditação como neurorreligação

A psicoterapia como neurorreligação

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A neurorreligação através das igrejas evangélicas


Ando por São Paulo e converso com pessoas das mais diversas classes sociais e culturais; entro, digamos assim, em ambientes diferentes uns dos outros e procuro assimilar o que cada um tem de bom (em termos culturais) para eu aprender.

Em um artigo anterior, “A neurorreligação com a religião na vida das pessoas”- http://neurorreligacao.blogspot.com.br/2017/02/a-neurorreligacao-com-religiao-na-vida.html - citei as igrejas evangélicas mas preferi escrever um artigo somente relacionado a elas. O que pode se tornar o primeiro de muitos.

Certa vez, em um domingo de manhã, na Av. São João, indo a  uma lan house, eu me deparei com a igreja, ou templo, do bispo R.R. Soares, a Internacional do Reino de Deus. Como a lan iria abrir um tempo depois, resolvi ver um pouco do que acontecia dentro do templo.

Na década de 90, eu ligava a televisão quando chegava em casa lá pelas seis horas da manhã, depois das chamadas “noitadas” (hoje baladas) e via alguma coisa dele. O achava tranquilo e por isso quis vê-lo ao vivo.

Eram oito e dez da manhã aproximadamente e o local já estava cheio.

Quando o culto começou, com uma música (não me lembro bem), pude presenciar certos comportamentos “bizarros” de pessoas que nunca se repetiriam em nenhum lugar. Primeiro uma menina dançava, rodopiava, em um canto com a maior parte do tempo de olhos fechados; e cantando. Ao lado, e quero comentar mais deste, um senhor com um belo terno cinza, simplesmente esmurrava a parede de revestimento almofadado. Depois se voltou para o palco, abaixando e levantando a cabeça, realizando um sem número de movimentos agressivos com os braços e mãos para todos os lados.

Qualquer psicólogo ou mesmo psiquiatra diz que é ótimo extravasarmos as nossas tensões e agressividade, mas, mesmo sem a palavra deles, sabemos desse fato, sentimos…  

Se aquele senhor participava do culto várias vezes por semana, durante meses e anos, com aquela agressividade, eu não sei, mas, de alguma forma, o que fazia mexia e muito com o cérebro. Disto tenho certeza. E qualquer melhora no comportamento dele positivamente, mesmo se fosse só de diminuir a agressividade dele na vida social e/ou no trabalho, eu diria que pontos no cérebro se modificaram em estrutura e funcionamento, configurando uma neuroplasticidade e depois uma neurorreligação.

Ainda está para acontecer alguma pesquisa nesse sentido, analisando  o cérebro de pessoas assim antes e depois de longas datas de cultos e/ou práticas evangélicas. Se já não aconteceu.

Conheci e conversei com muitas pessoas que curaram depressões, se livraram do vício das drogas e/ou do álcool frequentando e, o que é mais importante, extravasando emoções e sentimentos das mais variadas formas.

Para os evangélicos pessoas assim tiveram uma cura através de Deus. O que a ciência descobre cada vez mais com propriedade é a reconfiguração de atividades neurais levando as pessoas a se  comportarem melhores em relação ao mundo que as cerca. Mas se você acha que só nas igrejas evangélicas acontecem fatos dessa natureza, que só com o deus cristão, está enganado. Pessoas em outras religiões, seitas, “com outros” deuses também conseguem. Basta um exemplo: o hinduísmo.

Acontece que você adota a sua religião e o seus deus como absolutos; mas os outros também. E quem estará com a razão?

Uma coisa é certa: se concentrando, se esforçando, tendo fé no que passaram a você desde criança, mexerá no funcionamento e/ou nas suas estruturas cerebrais, sendo esses ensinamentos pura imaginação de quem as criaram em épocas quando criaram também a religião a eles relacionados. 


Nota:

Outro artigo para leitura:

“Religião ou neurorreligação?”-



 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A neurorreligação com a religião na vida de pessoas


Me lembro da minha infância e adolescência em minha cidade natal, uma pequena cidade do interior paulista, Santa Rita do Passa Quatro, onde era muito comum ver as mulheres, minha mãe, tias, mãe de amigos, etc., rezando o terço. Nas salas, cozinhas, quartos, fossem quais os  cômodos das casas, eu ficava impressionado com a concentração por parte delas e a exigência de respeito em não incomodá-las.  Muitas vezes olhavam para um canto do cômodo, quase sem piscar, e como em um transe ficavam horas recitando as ave-marias e pais-nossos.

Fico pensando hoje que áreas cerebrais alcançavam todos esses esforços. Era muita energia mental empregada nessas orações.

Naquela época não havia tanto stress como hoje mas, a vida é a vida, e responsabilidades e obrigações faziam parte de todos como agora.

E dou aqui um depoimento de como rezar o terço fazia bem àquelas mulheres, mas, algo é evidente: mexia com os cérebros. Naqueles dias não havia a tomografia por emissão de fóton único (SPECT), a tomografia por emissão de pósitrons (PET), a ressonância magnética funcional (fMRI) e a ressonância magnética espectroscópica (MRS); e talvez nem estudos preliminares em neurociência com instrumentos menos complexos...

Mas por que escrever um artigo em que não tenho dados concretos, experiências,  para a avaliação do leitor? Faço então uma comparação, uma analogia deste texto com o meu outro artigo “Religião ou Neurorreligação?” -

O esforço cerebral, a fé, as convicções das freiras católicas e dos monges budistas,  rezando e meditando, respectivamente, não estão acima das mulheres que rezavam o terço - como as descrevi - em nada no que diz respeito às cargas emocionais envolvidas em todos os processos de cada um. Não é porque uma mulher se tornou freira ou alguém se tornou budista que os seus cérebros são privilegiados em relação às outras pessoas. Pode haver a vocação para tanto mas quantas daquelas mulheres da minha infância não tinham o mesmo potencial para se tornarem freiras? E essa vocação se refere também ao estilo de vida que as freiras e monges adotam ou aceitam, algo talvez não presente nos ideais de vida das mulheres com o terço na mão em minha infância.

Mas elas também iam às missas, participavam constantemente de novenas, ou seja, possuíam uma vida religiosa intensa.

E hoje vejo os evangélicos também com uma vida rica em valores religiosos, práticas constantes de leituras e interpretações da Bíblia, etc. Não que não havia antes mas penso também como essas práticas mexem com os cérebros dos membros das igrejas evangélicas.

Juntando tudo isto dá para se imaginar, no mundo inteiro, com pessoas praticando suas religiões como nesses dois exemplos, que modificações estruturais cerebrais e funcionais podem contribuir para uma melhor qualidade de vida.

Não se engane que em outros países, culturas, etc., as práticas religiosas não sejam intensas, que não são como as do nosso país.

Os hindus também se dedicam diariamente às suas crenças e, por não ser obrigatório a presença em templos, o fazem em suas casas mesmo na maioria das vezes. Cantar hinos devocionais, mantras, meditação, são algumas dessas práticas realizadas com muita fé.

Eu poderia dar exemplos e mais exemplos de outras religiões e seus rituais mas estes três exemplos bastam aqui. Dois pertencentes à religião cristã, católica e evangélica, e outro à mais antiga de todas, o hinduísmo.

De tudo isso você pode concluir que, sentimentos e emoções oriundos das práticas religiosas, a própria fé e a convicção nas crenças, a frequência e intensidade desses ritos, etc., poderão levar a um bem-estar às pessoas, a médio, longo e até curto prazo, que eu chamo de neurorreligações. 

Houve, fisicamente e quimicamente, alterações no funcionamento e/ou modificações em pequenas estruturas cerebrais resultando em uma melhoria na vida emocional daquelas pessoas.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Religião ou neurorreligação?


Observação: recomendo a leitura de “Esclarecimento sobre a fé para os meus artigos” caso surjam dúvidas sobre a questão da fé: http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2014/04/esclarecimento-sobre-fe-para-os-meus.html
Este artigo:

“Resultados benéficos das terapias, meditações e religiões são faces de um mesmo fenômeno: a neurorreligação.”

Religião significa: "(s.f.) Culto rendido à divindade. / Fé; convicções religiosas, crença: a religião transforma o indivíduo. / Doutrina religiosa: religião cristã. / Tendência para crer em um ente supremo. / Acatamento às coisas santas. / Fig. Coisa a que se vota respeito: o trabalho era para ele uma religião”. (1) Significa também "religar-se", religar-se ao mundo.

É um modo de se ajustar à sociedade em que se vive, de buscar equilíbrio em todos os aspectos possíveis nas vidas das pessoas, e, também, a felicidade, através de orações, cultos, valores religiosos, etc., sendo, a fé, um dos sentimentos mais importantes para tanto.

Mas a Neurociência tem mostrado que os nossos sentimentos e emoções são resultados de atividades cerebrais relacionadas com neurotransmissores, neurônios, sinapses, produção de hormônios, ou seja, nada de sobrenatural influindo em qualquer cérebro ou sistema nervoso de nós seres humanos. E mais: há uma relação íntima entre esses fenômenos e a Teoria da Evolução onde tudo o que sentimos, é o resultado de conjuntos de genes em nossos DNA’s criadores de áreas cerebrais específicas, e que foram decisivos na perpetuação da espécie humana na Terra.

Então defino aqui um conceito, a Neurorreligação, devido ao meu modo de ver o Relativismo Religioso. (2)

A Neurorreligação se baseia nos seguintes fatos:

1 - O acreditar e a fé (3) são sentimentos, mas não sentimentos oriundos de qualquer fator ou ente (s) sobrenatural (s) e sim próprio da evolução do nosso sistema nervoso, especificamente do nosso cérebro. Eles como todos os outros sentimentos e emoções serviram à Evolução para que a espécie humana não se extinguisse.

2 - Existe uma capacidade natural, que nasce conosco, onde, conforme os valores religiosos vão se formando na mente das pessoas, pela influência do meio social, elas direcionam suas energias ao (s) ente (s) divino (s) e crenças aprendidas junto a ele (s). A fé seria uma extensão do acreditar: primeiro você acredita nos valores religiosos. É um sentimento. Depois você passa a, dizendo de forma prática, dar crédito, confiar, orar por um ente divino ou mais (se a sua religião for politeísta), orar pelos poderes associados a essas crenças, etc. (4)

3 - Neste momento você pode passar a se sentir bem, aliviado de sintomas negativos como, por exemplo, a tensão, angústia, ansiedade, sendo que a prática constante e intensa pode curar até depressões ou muitos outros estados emocionais negativos.

4 - Esses sentimentos são devidos à estimulação de áreas cerebrais específicas que introduzem em seu corpo e/ou no seu próprio cérebro, neurotransmissores, hormônios, e/ou substâncias químicas diversas fazendo com que você melhore de seus problemas. Exemplo: quando de uma oração você não está se comunicando com Deus, não está em contato com o sobrenatural de nenhuma espécie. Você, como qualquer outra pessoa de religião diferente, com valores religiosos diferentes, está "forçando" as áreas cerebrais responsáveis por sentimentos e emoções.

5 - Mas qualquer terapia, psicológica junto ou não à psiquiátrica, ou outra qualquer, e meditações, podem também estimular os seus neurônios a produzirem substâncias químicas a melhorar a sua condição mental.

6 - Quero dizer que as religiões, terapias e meditações estão em um mesmo patamar, não de eficácia, mas de finalidade para as pessoas se religarem ao mundo, se ajustarem às suas vidas, controlarem as suas emoções.

É evidente que as religiões, por terem os seus valores passados às pessoas desde quando crianças poderão ser mais eficazes, inclusive em um número maior de casos.
Considero clássicas as experiências do neurocientista estadunidense Andrew Newberg, onde freiras cristãs e monges budistas foram submetidos a tomógrafos computadorizados enquanto as primeiras rezavam e os monges meditavam. Veja um trecho (5) do texto publicado em uma revista de divulgação científica aqui no Brasil:
“No momento do transe, a área do cérebro responsável pelo sentido de orientação tem sua atividade reduzida, daí a sensação de desligamento com o corpo, relatada por quem passa por profundas experiências espirituais. É o que contam sentir os religiosos que passam por experiências sensoriais. ‘No momento de uma longa prece, sinto um aquietar da mente, uma sensação de paz interior e elevação espiritual. E também um sentimento de plenitude, como se a presença do Criador estivesse permeando meu ser’, relatou uma freira americana que participou das pesquisas.”

Newberg acredita em encontrar Deus na química dos neurônios, diferente do que digo aqui, mas, de qualquer maneira, suas experiências revelam a força da concentração, do esforço do pensar e ao mesmo tempo de ter fé em valores religiosos ou na filosofia, neste caso, budista. Tanto as freiras quantos os monges, diferindo radicalmente em muitas crenças, atingem estados mentais bem próximos, modificando o funcionamento da mesma área cerebral.

E para você ter uma ideia da diferença em crenças do cristianismo do budismo, basta saber que, para este último, o Deus  cristão  não  existe!

Concluindo, neurorreligação “é o resultado que se obtém ao nos concentrarmos, nos valores religiosos, nas terapias ou meditações, modificando o funcionamento de áreas cerebrais em nível de neurônios, neurotransmissores, hormônios, e outras substâncias químicas, para nos sentirmos bem”. As terapias, religiões e meditações são então neurorreligações.

E pode parecer estranho a frase “nos concentrarmos, seja em valores religiosos, terapias ou meditações…”, porque coloquei “valores religiosos” junto com terapias e meditações. Dá impressão que desrespeito a religião brasileira, coloco-a para baixo. O problema é que em nossa sociedade, em nosso meio ambiente social, predomina o culto ao cristianismo, onde se acha que ele é absoluto, o único verdadeiro, tendo as suas verdades como absolutas. Mas como em tudo neste blog eu defendo a ideia do Relativismo Religioso, porque, também, todas as religiões do mundo, em todas as épocas em que existiram ou ainda existem, se consideravam e se consideram absolutas, as únicas donas das verdades.

Qual estará certa? Nenhuma. Todas foram obras das mentes das pessoas.

O sobrenatural não existe.


Bibliografia:

1 - Dicionário Aurélio On Line - Brasil. Disponível em: http://www.dicionariodoaurelio.com/Religiao.html. Acesso em 25/05/2014

2 - Ver todos os artigos do blog “O relativismo religioso - Como eu o vejo”
 - http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br - principalmente:

Neurociência e como se formam os valores religiosos em nosso cérebro -
http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2017/04/neurociencia-e-como-se-formam-os.html 
3 - O acreditar e a fé como vantagens evolutivas. Argos Arruda Pinto. Disponível em: http://finalizacaoargos.blogspot.com.br/2008/02/o-acreditar-e-f-como-vantagens.html. Acesso em: 25/05/2014.

4 - É como se o cérebro enganasse a si mesmo mas você pode pensar de outra forma pois senão poderá duvidar e muito desta minha afirmação: o ser humano cria entes imaginários, atribui valores a eles, poderes, acreditando e colocando neles a fé que é tão poderosa. E não se pode provar que existem nem questionar porque seria heresia, blasfêmia. Tudo isto é passado de geração à geração em um povo ou região e acaba sendo tomado como uma verdade absoluta. Resumidamente, as religiões hoje existentes, algumas com mais de um bilhão de adeptos como o cristianismo, hinduísmo e o islamismo, começaram assim.

5 - Espiritualidade: A genética da fé. Carla Aranha. Revista SUPERINTERESSANTE. Disponível em: http://super.abril.com.br/cultura/espiritualidade-genetica-fe-446288.shtml. Acesso em: 25/05/2014.